No século XIX, a prática de sacrificar aves de diversas espécies para confeção de acessórios, especialmente chapéus, era tanto comum como desoladora.
Como se poderá constatar observando várias fotos e pinturas da época, durante as últimas décadas do século XIX, a decoração de penas, em chapéus e leques, estava no seu auge. Os chapéus para senhoras poderiam ser decorados com asas de aves, penas e até com aves inteiras.
Com a expansão colonial e a exploração de terras distantes surgia um número crescente de espécies no mercado europeu. Isto aumentou a demanda da moda para a utilização dessas aves e suas penas.
O Dodot, uma ave cujo desaparecimento remonta ao século VXII, tornou-se apenas numa lembrança distante, perdida no abismo da moda. No século XIX e no início do século XX, a grande maioria das pessoas acreditava que, por exemplo, os pombos, e outras espécies, eram abundantes e como tal inesgotáveis.
As aves apresentam uma variedade espetacular de formas, texturas e cores. As suas penas têm sido admiradas por povos em todo o mundo como emblemas de riqueza, poder, sorte e proteção por centenas, se não milhares de anos. No entanto, com o advento do comércio global e a ascensão da indústria da moda europeia e americana nos séculos XIX e XX, a natureza das penas usadas no corpo humano mudou drasticamente.
A procura insaciável de aves no final do século XIX, levou à destruição de várias espécies.O período de maior destruição de aves do mundo ocorreu entre 1860 e 1921. Na década de 1860 era frequente ver-se chapéus adornados com penas de avestruz ou asas de pássaros. O mais insólito, sem dúvida, surgiu em finais de 1880, quando os chapéus começaram a acomodar aves inteiras, empoleiradas na vertical ou colocadas de asas entendidas. Os historiadores estimam que, no início do século XX, 300 milhões de aves foram mortas por causa da moda.
No final do século XIX, Nova Iorque e Londres eram centros importantes da indústria de chapéus, que dependiam de um comércio cruel de penas. Os chapéus eram adornados com aves inteiras, como a ave-do-paraíso, ou com coleções de penas de garça.
A obtenção de penas frequentemente envolvia métodos brutais. Os caçadores perseguiam as aves apenas pelas suas penas, abandonando os seus corpos e, muitas vezes, deixando os seus filhotes a morrer. Isto levou a uma diminuição drástica das populações de algumas espécies de aves.
A procura de plumas de garça, que só são encontradas durante a época de reprodução, levou mesmo à ameaça de extinção dessas aves. Uma vez que estas plumas só aparecem durante a época de reprodução, a morte de uma única garça significava, de facto, a morte de mais 3 - 4 crias. Na América do Norte, por exemplo, mais de 95% das garças-reais foram mortas no final do século XIX. Mulheres influentes na moda, como Minna Hall e Harriett Hemenway de Boston, lideraram um boicote contra o uso de plumas e fundaram a Massachusetts Audubon Society em 1896 para proteger as aves. Esses esforços levaram à aprovação de leis, como a Lei Weeks-McLean em 1913 e a Lei das Aves Migratórias de 1918, que proibiram o comércio de plumas e garantiram a proteção das aves migratórias.
O comércio de penas era uma indústria lucrativa, porém controversa. Em Londres, por exemplo, centenas de pessoas estavam envolvidas nesse negócio. Jovens de famílias muito pobres realizavam diversas tarefas, desde pintar e lavar até secar, triturar, cortar, finalizar, modelar e enrolar as plumagens, em troca de algumas poucas moedas. O lucro desse comércio era tão grande que o roubo de penas era considerado um crime sério.
Como Tessa Boasse observa no seu fascinante livro 'Etta Lemon, The Woman Who Saved the Birds' (Etta Lemon, A Mulher que Salvou as Aves), publicado pela Aurum em 2021, nos dias de hoje, o roubo de uma pena parece absurdo. No entanto, na época vitoriana, tal ato resultava em prisão, como no caso de Alice Battershal, uma empregada que foi condenada a três semanas de trabalhos forçados por ter roubado uma pena. Isso ilustra a grande valorização desse recurso na época.
Se hoje nos podemos orgulhar das associações e leis de proteção de animais, é difícil conceber a indiferença que reinava, no século XIX, em relação ao sofrimento dos mesmos. A extinção de algumas espécies tornou-se um triste legado desse período sombrio.
Perante este cenário, três incansáveis mulheres lutaram para que se acabasse com a destruição das aves para criar extravagantes chapéus de penas: Emily Williamson, Etta Lemon e Eliza Phillips. Graças a elas foi fundada a Royal Society for Protection of Birds (Sociedade Real de Proteção às Aves).
Em 1889, Emily Williamson, frustrada com a inação da União Britânica de Ornitólogos, exclusivamente masculina, criou a Society for the Protection of Birds (Sociedade para Proteção das Aves). Esta tinha como objetivo principal combater a tendência da moda das penas e plumas exóticas que ameaçavam a sobrevivência de aves como garças pequenas, mergulhões de crista grande e aves-do-paraíso. Juntando forças, Emily, Etta Lemon e Eliza Phillips conseguiram que, em 1904, a sociedade recebesse uma Carta Real, tornando- -se a Royal Society for the Protection of the Birds (RSPB).
A campanha da RSPB culminou com a aprovação da 1921 Importation of Plumage (Prohibition) Act [Lei de Importação de Plumagem (Proibição) de 1921], marcando uma vitória significativa para a conservação da natureza.
A RSPB é uma organização de caridade registada no Reino unido, mas é também uma das maiores organizações de conservação de aves do mundo. Trabalha para promover a consciencialização sobre as aves, realiza pesquisas científicas e gerencia reservas naturais para proteger espécies ameaçadas.
Com o passar do tempo, a RSPB expandiu as suas atividades para além do Reino Unido, colaborando com organizações de conservação em todo o mundo e apoiando projetos de proteção de aves migratórias e habitats críticos em diversos países.
Já conheciam a história da Fundação da RSPB?
𝓣𝓮𝓻𝓮𝓼𝓪 𝓓𝓪𝓷𝓰𝓮𝓻𝓯𝓲𝓮𝓵𝓭
𝘛𝑜𝘥𝑜𝘴 𝘰𝑠 𝑑𝘪𝑟𝘦𝑖𝘵𝑜𝘴 𝘳𝑒𝘴𝑒𝘳𝑣𝘢𝑑𝘰𝑠

Sobre mim

Teresa Dangerfield
Sou escritora
quando prendo as palavras para criar mantas de sentido.
e sou poeta
quando as palavras que junto me emprestam magia.