Mariana adorava a natureza. Estudava com interesse animais e plantas, mas tinha um carinho especial por borboletas, em particular pelas borboletas-de-asas de vidro. As suas asas transparentes e cristalinas fascinavam-na.
Na Costa Rica, onde vivia, encontravam-se muitas espécies de borboletas. No entanto, começou a reparar que aquelas se viam cada vez menos.
Uma noite, teve um sonho que lhe pareceu real. Encontrava-se num planeta redondo e pequenino, talvez do tamanho de um campo de futebol.
Havia árvores e flores repletas de néctar para deleite das borboletas que voavam num céu azul e dourado. Eram muitas e de variadas espécies, algumas das quais ela desconhecia.
De repente, um ser meio humano, meio inseto, com asas cristalinas, apareceu à sua frente. Ajoelhou-se perante ela. O seu olhar era tão doce que lhe deu conforto. Começou então uma conversa por telepatia.
— Mariana, eu sou Kyran, o Guardião das Borboletas. Estás no planeta Luminara, a muitos anos-luz da Terra. Em que te posso ajudar?
Mariana sorriu, surpreendida por ouvir o seu nome.
— Como sabes quem sou? Guardião das Borboletas? Então é isso! Preciso da tua ajuda, sim, Kyran! As borboletas...
Não conseguiu terminar, pois um vento forte surgiu do nada e trouxe uma nuvem escura que cobriu tudo. As borboletas voaram para dentro de uma espécie de caverna no solo. Kyran desapareceu repentinamente.
O vendaval continuou. Assustada, Mariana agachou-se junto às flores. Estranhamente, estas começaram a fechar as pétalas.
Agarrou-se a uma flor amarela, tentando resistir à força do vento, mas foi arrastada, voando aos trambolhões... até acordar na sua cama.
“Terá sido real?”, questionou-se, estremunhada. Nesse instante, a janela do quarto escancarou-se com uma rajada de vento. Na sua cama caiu uma flor idêntica à do sonho.
Abriu os olhos de espanto. “Kyran, o guardião das borboletas? E esta flor? O que significará tudo isto?”
As perguntas vinham uma atrás da outra. Acabou por adormecer. No entanto, não voltou a sonhar com Luminara.
Na manhã seguinte, começou a observar as flores ao seu redor. Reparou que muitas estavam a murchar, como se cobertas por uma névoa invisível. Não admirava que as borboletas estivessem a desaparecer, e, nesse caso, o perigo não era só para as suas adoradas borboletas-de-asas-de-vidro, mas para todas.
Sem néctar, como sobreviveriam?
Mariana percebeu que precisava de agir rapidamente.
Nos dias que se seguiram, a menina só pensava em encontrar uma forma de contactar Kyran.
Tentou comunicar com ele por pensamento, sem que tivesse resposta. E nunca mais sonhara com o Guardião das Borboletas.
Teve uma ideia. E se lhe escrevesse um bilhete? Talvez ele o recebesse.
Pegou num bloco, numa caneta e na flor que guardava com muito cuidado (secara-a entre as páginas de um livro).
Dirigiu-se à praia, onde adorava observar o mar. Sentada na areia, começou a escrever.
Querido Kyran,
Sou a Mariana. Vivo em Tamarindo, na Costa Rica. Não sei se foi apenas um sonho.... Perguntaste-me em que me podias ajudar. Acredito que podes, pois és o Guardião das borboletas. É para elas que peço ajuda.
Por favor, vem ...
Antes que Mariana pudesse terminar a mensagem, um estranho vento fustigou a areia e levou bloco e caneta pelos ares.
Tapou a boca, para não engolir areia e desatou a correr, como todos os que por ali estavam, à procura de abrigo. Ainda bem que prendera a sua cabeleira castanha em duas tranças, pois sentia-se quase a ser puxada pelos cabelos.
Minutos depois, foi como se nada tivesse acontecido. As pessoas olhavam-se espantadas, sem saber o que pensar ou dizer. Mariana voltou para casa. Até a flor que guardara com tanto carinho desaparecera.
— E agora? — murmurou.
Nessa noite, inquieta, olhou pela janela do seu quarto. O céu estava estrelado e luminoso. “Onde ficará Luminara? “, pensou. “Possivelmente só mesmo em sonhos é possível chegar lá.”
Envolta nesses pensamentos, desejava secretamente que aquela estranha ventania tivesse acontecido por uma razão especial. Teria levado a sua mensagem a Kyran?
Acabou por adormecer quando o sol estava quase a despertar.
No dia seguinte, depois da escola, voltou à praia. Sentada na areia, viu passar uma menina, mais velha do que ela, montada num cavalo branco. Sentiu uma paz profunda. Foi como se uma luz, vinda do animal, a envolvesse.
Do nada, uma borboleta-de-vidro pousou-lhe na mão. As suas asas pareciam feitas de cristal. Teve a sensação de que algo mágico estava prestes a acontecer.
De repente, Kyran apareceu. Estendendo uma das suas muitas mãos, entregou-lhe a flor que ela perdera. Mariana deu um pulo.
— Só tu me consegues ver. Não te assustes — disse-lhe Kyran, por telepatia.
Mariana ria e chorava ao mesmo tempo. A voz tremia-lhe:
— Kyran! Recebeste...?
— Eu vi-te escrever. Enviei o vento...
— E vieste! Que bom!
— O soberano do planeta Vorlum tenta impedir-nos de ajudar outros mundos, sobretudo a Terra. Alimenta-se da destruição das flores e do desaparecimento das borboletas.
Mariana ouvia Kyran com atenção, sentindo um nó no estômago.
Kyran continuou:
— Está sempre a atacar-nos. Foi ele quem te fez desaparecer bruscamente quando nos visitaste. Entre o meu planeta e a Terra, havia uma névoa que me impedia de agir.
Mariana baixou os olhos.
— Ah! Compreendo! E agora?
— Fica tranquila. Eu e o meu exército estamos aqui. As flores voltarão a produzir néctar. Cuidaremos disso. Mas tu tens um papel importante: deves plantar flores e explicar às pessoas como o néctar é essencial para as borboletas — e elas para o ecossistema.
— Prometo, Kyran. E esta flor será o meu maior tesouro.
— Adeus, Mariana. Temos muito trabalho pela frente!
Dito isto, afastou-se, acompanhado de maravilhosos seres alados, de todas as cores e tamanhos.
Mariana acenava e atirava beijinhos ao ar. Algumas pessoas olhavam-na desconfiadas, só que a sua alegria era tão contagiante, que acabaram por rir com ela.
Kyran regressou a Luminara. As flores voltaram a abrir-se, bonitas e radiantes. E as borboletas preenchiam novamente o horizonte.
Mariana nunca mais viu Kyran. Porém, quando passeava junto ao mar, sentia a sua presença. Aquela borboleta gigante, de enorme coração, tinha conquistado o seu, para sempre.
E, desde então, cumpria a promessa que fizera: plantar flores, cuidar da natureza e ensinar a importância das borboletas para o ecossistema.
Teresa Dangerfield
Nota: este conto nasceu de um desafio de escrita lançado pelo Clube dos Writers, em julho de 2025 , que consistia em escrever um conto incluindo as palavras indicadas a negrito no texto.

Sobre mim

Teresa Dangerfield
Sou escritora
quando prendo as palavras para criar mantas de sentido.
e sou poeta
quando as palavras que junto me emprestam magia.