Entrevista imaginária a um carvalho alvarinho

T – Olá, eu sou a Teresa, obrigada por me dares esta entrevista. Queres apresentar-te?

A –Eu sou um carvalho alvarinho e o meu guarda florestal favorito pôs-me o nome de Arabela.

T – Muito bem, Arabela, gosto muito do teu nome. Sabes como vieste aqui parar?

A –A árvore que me deu vida já não existe. Tenho mais de 200 anos, segundo diz o Guilherme. Fui uma daquelas sementes que cresceram aqui no alto da serra. Tenho algumas irmãs aqui por perto e também as minhas filhas. Estão à minha volta. São as três mais pequenas que estão à direita, mais as quatro mais altas que estão do outro lado. Somos uma família unida e temos o nosso trabalho de bombeiras.

T- Fascinante! Explica lá o que é esse trabalho de bombeiras.

A –Então é assim: nós somos folhosas, o que quer dizer que as nossas folhas absorvem mais humidade. Assim, mantemos o ambiente húmido, os fogos não pegam tão facilmente e também travamos as chamas. E mesmo quando as nossas folhas caem, decompõem-se e são pouco inflamáveis. Dessa maneira, protegemos as florestas. Temos essa missão.

T – Que linda missão! Tem havido por aqui muitos fogos?

A - No tempo mais quente é o pior. Aqui no alto da serra tem havido menos, mas mesmo assim temos sofrido. Deves saber que, por exemplo, os pinheiros ardem com facilidade. Aqui perto havia um, o nosso Verdinho, que ardeu e nos deixou muito tristes. Além disso é um problema para os animais. Já perdi muitos amigos. Alguns não resistem, outros acabam por ir para outros lados.

T – Fico triste por todos. Realmente a vossa missão é importante. E, no meio disso tudo, costumam ter problemas de falta de água?

A – Nós armazenamos água quando podemos. No inverno a água pode até estar gelada e as nossas raízes não conseguem absorvê-la, por isso temos de ter uma estratégia. Tenho ensinado as minhas filhas a beberem um pouco menos nos meses de maio e junho, pois no verão o solo pode ficar muito seco e assim podem ter alguma água durante julho e agosto. Vamos fazendo as nossas reservas sempre que podemos.

T – Estou a ver que são muito organizadas.

A – Tem de ser. Não precisamos de muito para viver, apenas de água, sol e luz, mas temos os nossos sistemas. Por exemplo, quando notamos que o solo está a ficar muito seco, prevenimos as outras árvores, para que não consumam tanta água.

T – A sério? Como fazem isso?

A – Através do nosso sistema de comunicação que é uma rede de fungos. Está debaixo dos teus pés e que cresce à volta e dentro das nossas raízes. É a nossa internet do reino vegetal! Através dela podemos partilhar não só informações, como alimentos!

T – Que interessante! Já tinha ouvido falar dessa internet. Temos muito que aprender convosco!

A – Lembra-te de que as árvores existem há milhões e milhões de anos e de que, sem nós, o mundo não poderia sobreviver.

T – Verdade, as árvores dão-nos oxigénio e só por isso são importantes para cada um de nós.

A – Pois é! Podes lembrar aos meninos e meninas que gostam de chocolate, por exemplo, que é graças ao cacaueiro que se podem deliciar. Podia ficar para aqui a falar nos produtos que as árvores dão e se escrevesses o que eu dissesse acabarias com uma lista enorme, mas aqui tens só alguns: chás, medicamentos, madeira, frutos, papel...

T – Sabes tanta coisa! Mas claro, nem podia ser de outra maneira. Mas vamos agora falar um pouco de ti. Podes descrever-me como se passa um dos teus dias?

A – Bom, costumo acordar muito cedo, logo que o sol nasce, pois é necessário armazenar energia, sobretudo se for mais perto do Outono. É preciso converter a energia em seiva. Por isso, a primeira coisa que faço é erguer os meus ramos o mais alto que consigo.

Depois, alimento as minhas filhas mais novas. Como vês, sou bastante alta, e algumas das minhas filhas são mais altas que outras. Como estão junto a mim e a algumas das tias mais velhas, acabamos por lhes tapar as luz, de que elas necessitam para crescer e produzir o seu próprio alimento. Por isso, para começar, alimento-as através das raízes, com a água “açucarada” que produzo. E às vezes também ajudo algumas árvores vizinhas que precisam de alimento, através da nossa internet. Depois é altura de ensinar as minhas filhas.

T – Pois, há pouco disseste que as tens ensinado a poupar água. Que mais lhes ensinas?

A – Se calhar vais-te rir, mas é como se fosse uma escola. Só que vai durar muitos anos, mas não importa, porque para nós 100 anos não são o mesmo que para ti. Algumas das minhas filhas ainda nem 100 anos têm.

T – Uma escola? Que interessante! Quero saber mais.

A – Pois bem. A primeira lição que ouvem todos os dias é: mantenham-se direitas, para crescerem e também para que não quebrem se houver alguma tempestade.

T – Muito importante, sem dúvida. Já tenho visto árvores um pouco ‘tortas’. Essas não devem ter aprendido a lição.

A – É isso mesmo, acham que dessa maneira conseguem captar mais luz e ser independentes mais cedo, mas muitas vezes acabam mal.

T – E que mais aprendem na escola?

A – Aprendem a defender-se de parasitas e doenças. Ensino-as a enviar “sinais” de perigo através de aromas e químicos que podemos libertar. Por exemplo, se formos atacadas por alguns insetos, podemos libertar não só um químico que dá às nossas folhas um sabor horrível, como também um cheiro que os pode afastar e ao mesmo tempo avisar outras árvores (nesse caso contamos com a ajuda das brisas), para que façam o mesmo.

T – Nunca tinha pensado nisso. E como se protegem das doenças?

A – Bom, a nossa casca é como se fosse a nossa pele, protege-nos. Como não podemos andar de um lado para o outro, temos uma ‘pele’ ou casca dura. Só que às vezes a nossa casca é atacada e ferida. Não somos capazes de curar as feridas, mas, com a nossa seiva, fazemos uma espécie de ‘selo’ com vários compartimentos em volta da ferida, para evitar que se espalhe. Por vezes os fungos começam a invadir as feridas e por isso é preciso atuar rapidamente.

T – Já tinha visto certas formas nas árvores que pareciam feridas, mas não sabia que vocês tinham essas defesas. Estou a aprender muitas coisas. Muito bem, bombeira e sábia, isso digo eu. Nunca ficas assim, como dizer, ‘cansada’?

A – Claro que não. Mas nós, as árvores, também dormimos. Quando o sol se põe, não podemos converter a energia no nosso alimento, por isso baixamos os nossos ramos uns centímetros, e, mal o sol se levanta, erguemos de novo os nossos ‘braços’. No entanto, estamos sempre alerta, por meio da nossa rede de comunicações.

T – Estou a conhecer-vos cada vez melhor. Agora quero que me fales sobre ti. O que mais te irrita?

A – Se queres mesmo saber, são as pessoas que põe as florestas a arder, as que destroem as árvores sem necessidade e as que não pensam em nós como seres vivos. Lá porque não conseguem comunicar connosco (mas sabes que há quem o faça), lá porque não conseguimos caminhar, lá porque parece que não estamos em ação, não quer dizer que não temos uma vida que merece ser respeitada. Basta ver como mudamos durante o ano. Tudo acontece muito devagar, mas acontece. O nosso sangue é a água que corre no nosso tronco, que nos alimenta.

Ah! E já me esquecia, as vespas irritam-me porque me causam bugalhos quando me picam!

T – Concordo contigo! E tenho pena de que tenhas bugalhos, mas és linda na mesma, seja em que estação do ano for, com ou sem bugalhos. Eu gosto de ver as árvores em todas as estações do ano. Qual a tua preferida?

A – Eu gosto de todas, porque são todas necessárias. Fazem parte do nosso ciclo de vida. Mas se tivesse mesmo que escolher uma, escolheria a primavera, quando as folhas começam a voltar e as bolotas começam a aparecer. Nessa altura também os nossos amigos pássaros e esquilos nos visitam mais. E adoro quando há ninhos nos meus ramos.

T – Já vi que isso te deixa feliz. Que mais te faz feliz?

A – São os abraços do Guilherme, o guarda florestal. Ele compreende-nos, ajuda-nos, preocupa-se connosco. Já conheci muitos antes dele, mas nenhum assim. Até deu nomes às minhas filhas.

T – Esse teu guarda florestal é muito fixe. Também estou a gostar dele.

Que mensagem final gostarias de deixar?

A –𝑁ã𝑜 𝑠e e𝑠q𝑢e𝑐̧a𝑚 𝑑e q𝑢e n𝑜́s, 𝑎s á𝑟v𝑜r𝑒s, 𝑠o𝑚o𝑠 𝑖m𝑝o𝑟t𝑎n𝑡e𝑠 𝑝a𝑟a o p𝑙a𝑛e𝑡a. 𝑁ã𝑜 𝑛o𝑠 𝑑e𝑠t𝑟u𝑎m s𝑒m n𝑒c𝑒s𝑠i𝑑a𝑑e. 𝐸s𝑡a𝑚o𝑠 𝑎q𝑢i p𝑎r𝑎 𝑣o𝑠 𝑎j𝑢d𝑎r.

T – Linda mensagem. Com isto, vou deixar-te na tua paz. Obrigada por esta entrevista, aprendi mesmo muito. Vou dar-te um abraço, posso? Não será como o do Guilherme, mas é com muito carinho, acredita.

A – Obrigada, Teresa, quem me dera que conseguisses ouvir as batidas do meu coração, pois saberias como me fazes feliz.

T – As batidas do teu coração? Que queres dizer?

A – Verdade, eu expando em intervalos de três a quatro horas, é como se o meu coração batesse. Mas imagino que não vais ficar a dar-me um abraço pelo menos durante três horas, para saberes que é mesmo real.

T – Talvez um dia! Mas acredito em ti. Cada vez estou mais encantada com o que contas! Obrigada, Arabela.

Teresa Dangerfield

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Sobre mim

Teresa Dangerfield

Sou escritora

quando prendo as palavras para criar mantas de sentido.

e  sou poeta

quando as palavras que junto me emprestam magia.

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