A Mulher da Caverna

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Lina adorava o escuro, a noite, a lua. Do sol, cujos raios os seus cabelos soltos ao vento nas noites de luar imitavam, fugia, vá-se lá saber porquê. Vivia numa casa isolada, perto de uma floresta. O mar também não ficava longe.

Muitos diziam que a casa de Lina parecia uma caverna. Escura, apenas algumas frestas deixavam entrar a luz que ela permitia, através das pedras que já haviam conhecido muitas gerações, guardando histórias e segredos que o tempo preservará.

Lina vivia sozinha. Contava-se que era casada, que o marido partira para longe. Estaria à espera dele? Não tinha mais família, pelo menos que se soubesse. Dizia-se muita coisa sobre Lina. Ainda era nova, e quem lhe conseguia ver bem o rosto dizia que era linda. Vivia rodeada de árvores, de ervas aromáticas e de plantas muito bem tratadas. Mal o sol desaparecia, lá estava ela fora de casa a cortar as ervas daninhas, a regar tudo, a colher o que precisava.

Durante o dia, dormia algumas horas e fazia poções que muitos juravam curar doenças. Havia quem lhe chamasse bruxa. Não se importava. As pessoas com quem convivia achavam que entrar na sua casa era uma experiência que causava tristeza. Mas isso devia-se apenas ao confronto com a escuridão, pois Lina era indulgente, sempre pronta a ouvir os outros e com uma palavra de conforto para todos. Por isso, a mulher da caverna, como era conhecida, tinha amigos que não a deixavam passar fome; era acarinhada.

Passavam outonos ventosos, invernos rigorosos, primaveras floridas, verões luminosos e Lina continuava a amar a escuridão, deixando que as paredes da sua caverna a protegessem num enorme abraço. Já ninguém estranhava. Era a mulher da caverna.

Até que veio um dia em que chegou a noite e Lina como que sumiu. Joana, uma amiga que quase sempre lhe trazia comida, ficou alarmada quando a procurou e não encontrou sinal de vida em lado nenhum. A notícia espalhou-se pela povoação. Ninguém se dera conta de qualquer incidente, nem avistara Lina. Afinal, era inverno e, com as noites frias, todos se recolhiam cedo.

Joana não desistiu de procurar a amiga. Conseguiu organizar um grupo que percorreu a floresta e a praia em busca de pistas. Não encontraram sinais de Lina. Aqueles a quem ela ajudara ficaram desolados, pensaram que fora levada pelas ondas. Joana sentia no seu coração que Lina estaria num lugar melhor.

Para espanto de todos, decorrido um mês, a casa de Lina apareceu à venda. Ninguém acreditava que fosse possível que a caverna passasse a ter outro dono, depois de tanto tempo. O certo é que a casa foi comprada por um casal que a tornou num espaço muito acolhedor, com um café e biblioteca. Chamaram-lhe “A Caverna”, pois, afinal, ficaram a conhecer a história daquele local.

Quanto a Lina, houve quem dissesse que o marido regressara e viera buscá-la. Não se sabe onde vive de momento, mas estará feliz a contemplar um luar prateado como tanto gosta.

Teresa Dangerfield

14 de setembro de 2023

Nota: este microconto surgiu do seguinte desafio de escrita (Clube dos Writers): Criar um microconto de 500 palavras, utlizando as palavras :caverna, família, experiência, indulgente, confronto, sem nenhuma ordem específica.

Sobre mim

Teresa Dangerfield

Sou escritora

quando prendo as palavras para criar mantas de sentido.

e  sou poeta

quando as palavras que junto me emprestam magia.

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